Foto: Rodrigo Lelis (Divulgação)
Não contente em ser indicado a Melhor Ator, Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Filme, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre também na grande novidade do Oscar 2026: a categoria Melhor Direção de Elenco. A proposta é que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas passe a reconhecer oficialmente os profissionais responsáveis pela pesquisa, seleção e direcionamento dos atores de um filme – um trabalho primordial, mas historicamente invisível na premiação.
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A inclusão da categoria, defendida há anos por especialistas do setor cinematográfico, representa uma mudança significativa na história do Oscar. Ao longo de quase 100 anos, a Academia sempre premiou atuações individuais – em Melhor Ator, Melhor Atriz e categorias coadjuvantes –, mas nunca o conjunto. A última vez que uma nova categoria foi criada foi em 2001, com a inclusão de Melhor Longa de Animação, cujo primeiro vencedor foi Shrek. Agora, com a novidade, o Oscar volta a ter 24 categorias.
A mudança também pode influenciar a forma como os estúdios planejam suas produções, estimulando a busca por elencos diversos, em vez de apostar apenas em um ou outro grande nome. O Agente Secreto disputa o prêmio com Hamnet, Marty Supreme, Uma Batalha Após a Outra e Pecadores.
O trunfo brasileiro
Em campanha internacional pelo filme, o protagonista de O Agente Secreto e primeiro homem brasileiro da história indicado a Melhor Ator, Wagner Moura, é apenas um dos 65 atores e atrizes que participam do longa. Ao seu lado, o filme reúne um elenco recheado de nomes conhecidos, como Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone.
O responsável por reunir tantos talentos foi o diretor de elenco Gabriel Domingues, nome diretamente ligado à indicação do filme na nova categoria. Entre os indicados, ele é o único homem, algo incomum em premiações de cinema.

Figura pouco visível para o grande público, mas fundamental para o resultado final de uma obra, o diretor de elenco exerce um papel semelhante ao do olheiro no futebol. É ele quem percorre o país, vai a teatros, acompanha testes e constrói um banco de talentos.
O trabalho envolve também ter a sensibilidade de olhar para fora do radar. Domingues não conhecia Robério Diógenes, escalado como o delegado Euclides após se inscrever em uma convocatória pelas redes sociais e passar por um teste on-line com Mendonça Filho.
O garimpo seguiu pelo Nordeste. A atriz Geane Albuquerque chegou ao filme por meio do Teatro Experimental de Fortaleza e interpreta Elisângela, uma funcionária pública que trabalha com o personagem de Wagner Moura.
Algumas escolhas foram certeiras desde o início, como a de Alice Carvalho, que vive Fátima, esposa do protagonista. O convite foi feito às pressas, e ela sequer fez teste.
Outro caso semelhante foi o da atriz Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana. Um dos destaques da trama, sua escalação ocorreu porque Mendonça já a conhecia do trabalho conjunto em Bacurau. Lá, ela fez uma pequena participação como figurante e, em O Agente Secreto, tornou-se uma das estrelas do filme.
Com inúmeros outros intérpretes, formou-se um elenco com entrosamento acima da média. Em entrevista à GloboNews, Domingues resumiu o trabalho de escalar com uma frase: “Você muda o ator, muda o filme”.
Ele também destacou que, em eventos ligados ao Oscar, muitos profissionais norte-americanos demonstraram curiosidade com a diversidade dos atores brasileiros. Domingues, que tem 11 anos de carreira, declarou que propositalmente escalou um elenco diverso para reconstruir o país da época retratada no longa-metragem, e que segue sendo o reflexo do Brasil.
Quem são os concorrentes de O Agente Secreto
Nina Gold – Hamnet

Nome consagrado da indústria, Nina Gold construiu uma carreira sólida como diretora de elenco em produções de grande alcance, como Game of Thrones, quatro filmes da saga Star Wars, The Crown, Os Miseráveis e Conclave – indicado ao Oscar no ano passado. Gold venceu dois Emmys por seu trabalho na série da HBO.
Em Hamnet, seu trabalho é sustentado pelas atuações de Paul Mescal e Jessie Buckley, favorita ao prêmio de Melhor Atriz, além do desempenho sensível do ator mirim Jacobi Jupe – fatores que ajudam a justificar a indicação do filme à nova categoria.
Da lista, Gold é quem mais acumula créditos: são 207 trabalhos como diretora de elenco, sem contar as séries.
Jennifer Venditti – Marty Supreme

Responsável pela direção de elenco de Marty Supreme, Jennifer Venditti assinou um dos elencos mais comentados da temporada. O trabalho rendeu ainda uma indicação de Melhor Ator a Timothée Chalamet.
Venditti apostou em um elenco diverso e ousado, reunindo nomes consagrados, como Gwyneth Paltrow – vencedora do Oscar de Melhor Atriz em 1999 por Shakespeare Apaixonado –, e figuras fora do circuito tradicional do cinema, como o rapper Tyler, the Creator e o empresário Kevin O’Leary, do programa Shark Tank.
Curiosamente, ela também assina o elenco de outro longa do Oscar 2026, Bugonia, além de já ter feito o casting da série Euphoria e do filme Joias Brutas.
Cassandra Kulukundis – Uma Batalha Após a Outra

O filme de Paul Thomas Anderson não teria o mesmo impacto sem o trabalho de Cassandra Kulukundis. Eles mantêm parceria desde 1997, quando fizeram Boogie Nights.
Para Uma Batalha Após a Outra, ela escalou atores já premiados pela Academia, como Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Benicio del Toro, colocando-os para contracenar com nomes menos conhecidos, como Chase Infiniti, uma das revelações do cinema neste ano.
Ao todo, o filme soma quatro indicações por atuação: DiCaprio como Melhor Ator; Penn e del Toro como coadjuvantes; e Teyana Taylor como Atriz Coadjuvante.
Francine Maisler – Pecadores

Um elenco equilibrado é essencial em um projeto do porte de Pecadores, e Francine Maisler soube explorar isso com precisão. Uma das figuras mais influentes da profissão, ela tem no currículo obras como Adoráveis Mulheres, as duas partes de Duna e O Espetacular Homem-Aranha.
O destaque do filme fica para Michael B. Jordan nos papéis dos gêmeos protagonistas Faísca e Fumaça, além da presença de atores de peso como Jack O’Connell, Hailee Steinfeld e Wunmi Mosaku. Pecadores também revelou Miles Caton ao público e garantiu a Delroy Lindo uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante.
O que pesa para a Academia?
Ainda é difícil prever o que a Academia levará mais em conta nesta estreia: o renome dos profissionais, o peso dos filmes ou o trabalho de casting em si. A ausência de Valor Sentimental na categoria chamou atenção, já que o filme teve quatro interpretações indicadas ao Oscar.
A explicação pode ser simples: não houve, de fato, um trabalho estruturado de direção de elenco. O diretor Joachim Trier escolheu pessoalmente três intérpretes, e o casting serviu apenas para fechar o quarto papel. O prêmio não é de melhor elenco, mas de melhor direção de elenco.
A criação da categoria abre caminho para novas mudanças. A partir do 100º Oscar, em 2028, a Academia deve passar a premiar também os coordenadores de dublês, com a categoria Achievement in Stunt Design (Melhor Design de Dublês ou Acrobacias).
Enquanto isso, O Agente Secreto entra na disputa carregando um dos elencos mais diversos do Oscar 2026, e um trunfo brasileiro em uma categoria que, pela primeira vez, reconhece o trabalho de quem dá rosto e voz às histórias do cinema.